Cadernos de Campo. Orlando Ribeiro. Moçambique 1960-1963. Série Orlando Ribeiro,Ed. Humus / CEAUP, 2013.

 

Índice:

  • Apresentação - 7
  • Prefácio - 9
  • I. Enquadramento
  • O Caderno de Campo de Moçambique de Orlando Ribeiro e o seu contexto - 13
  • II. Documentos
  • 1. O caderno de campo n.º 52 - 35
  • 2. A ilha de Moçambique - 269
  • 3. A Ilha de Moçambique: na Rota da Índia - 275
  • 4. Ilha de Uibo - 289
  • 5. Fotografias - 293
  • III. Materiais de apoio
  • Mapas, Glossário, Bibliografia e Índice Toponímico - 303
  • Mapa - 305
  • Glossário de termos geográfi cos e antropológicos - 307
  • Bibliografia - 313
  • Índice Toponímico – Moçambique - 317                               

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Cadernos de Campo. Orlando Ribeiro. Moçambique 1960-1963.- 3º vol. Colecção Experiências de África. Série Orlando Ribeiro - Ed. Humus / CEAUP, 2013

Prefácio

Este prefácio ao livro de apontamentos sobre Moçambique, que me foi solicitado pelo Professor Maciel Santos do Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto (CEAUP), tem o sentido de uma homenagem ao insigne geógrafo, pensador e professor Orlando Ribeiro, estudioso da geografia humana das regiões tropicais correspondentes ao antigo império colonial português. A grande projecção e prestígio alcançados pelo Professor Orlando Ribeiro dispensam, da minha parte, encumiásticos discursos na tentativa de exaltar a sua figura e o seu papel nos meios científicos e universitários. As homenagens que outros grandes mestres das ciências geográficas e sociais, mais competentes, já prestaram a Orlando Ribeiro são sufi cientes testemunhos do reconhecimento digno da sua envergadura humana. Instituições como a Academia das Ciências, a Sociedade de Geografia de Lisboa, o Centro de Estudos Geográficos, de que foi fundador, e outras consagraram já ou irão consagrar a importância da sua notável obra.

A memória de Orlando Ribeiro e da sua obra impõem-se naturalmente, a todos os que beneficiaram no passado, e beneficiam no presente, da leitura dos seus numerosos trabalhos científicos espalhados por várias revistas da especialidade, com especial destaque para a Finisterra, inquestionavelmente um dos mais importantes veículos editoriais e fonte de informação da geografia portuguesa e dos actuais países africanos de língua portuguesa. Com o seu espírito científico e de humanista notável, participou durante largos anos intensamente nas actividades do Centro de Estudos Geográficos, da revista Finisterra e da União Geográfica Internacional, congregando à sua volta colaboradores que, com orgulho, se diziam seus discípulos, constituindo aquilo que se podia chamar a «família geográfica».

Apesar de dizer que não conheci pessoalmente o Professor Orlando Ribeiro; o seu nome era-me, contudo, familiar desde os tempos de estudante no antigo Liceu Salazar da também antiga cidade de Lourenço Marques. A sua obra influenciou gerações de estudantes e de professores, que veem nos escritos científicos do Mestre da Geografia a melhor maneira de compreender a sociedade, ou antes, as sociedades, observando-as como um todo que entrelaça natureza e elemento humano com as suas diversas manifestações socio-culturais. Orlando Ribeiro ficou, aliás, conhecido como o grande renovador dos estudos geográficos, porque, na esteira de Marc Bloch, de quem foi lídimo discípulo, introduziu o factor humano para a compreensão geográfica entendida como síntese de realidades diversas, que permitia o entrecruzamento da Geografia com a História, a Antropologia e a Etnografia, o que o tornou num dos mais proeminentes cientistas portugueses da segunda metade do século XX. O seu livro Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico, porventura a obra mais emblemática de Orlando Ribeiro, será referência maior não só no âmbito específico das ciências geográficas e sociais como também de outras ciências, especialmente das ciências da terra. Como toda a obra de Orlando Ribeiro, o livro Portugal, o Mediterrâneo e o Atlântico e o que ora se publica sobre as sua pesquisas em Moçambique vão ter, seguramente, um importantíssimo papel na formação de actuais e futuros geógrafos moçambicanos, esperando-se que venham a constituir referências obrigatória nos currículos das universidades de Moçambique.

Antes de Moçambique, Orlando Ribeiro tinha já desenvolvido trabalhos importantes sobre os outros territórios coloniais portugueses. Esses trabalhos, resultantes das viagens que realizou, testemunham a intensa actividade do geógrafo e cientista que era Orlando Ribeiro. São trabalhos de minúcia extraordinária onde, além de aspectos de natureza eminentemente geográfica, Orlando Ribeiro revela as suas preocupações sociais acerca dos grupos observados, a vida social, dos costumes à arte, mostrando-nos que a pesquisa do geógrafo, como a de outro qualquer cientista social, não se desliga da natureza como um todo.

Apesar de só ter visitado Moçambique pela primeira vez em 1960, não se pode dizer que Orlando Ribeiro desconhecesse a realidade geográfica e social do território. Na verdade, além do conhecimento que tinha da cartografia, que lhe permitiu uma interpretação da paisagem e da ocupação humana, Orlando Ribeiro dotou-se ainda de conhecimentos de outras áreas de investigação, designadamente da antropologia, da agronomia, da zootecnia e da veterinária. Além do próprio conhecimento que tinha do território, contou também com o apoio de outros credenciados investigadores portugueses da época, residentes ou não residentes, etnólogos, biólogos e agrónomos, todos com ligação aos principais centros de investigação existentes na colónia, designadamente o Centro de Investigação Científica Algodoeira, a Estação de Biologia Marinha e o Instituto de Investigação Científica. Desses colaboradores permito-me destacar os professore Jorge Dias, um dos mais credenciados etnólogos portugueses, e Aurélio Quintanilha, eminente biólogo e geneticista, opositor político ao regime do Estado Novo a desenvolver a sua actividade de investigação e de ensino em Moçambique, onde deixou obra mérito.

O caderno de apontamentos e notas sobre Moçambique, mantido inédito e que ora agora se dá à estampa, reporta aos anos de 1960, 1961 e 1963 e documenta os dados que Orlando Ribeiro recolheu durante as três visitas de estudo que fez à então colónia, integrado em missões de investigação criadas no âmbito do Centro de Estudos Geográficos, numa altura em que já se anunciavam «tempos de mudança» para toda a África, incluindo a que se encontrava sob administração colonial portuguesa.

Um dos grandes méritos de Orlando Ribeiro foi a sua liberdade de pensamento, posta ao serviço da ciência, tanto mais relevante porque, à época, toda esta actividade decorria no quadro de uma anacrónica situação de domínio colonial. A experiência ganha em outros territórios, o vasto conhecimento científico que alcançara e também a sua enorme formação humanística, foram cruciais para Orlando Ribeiro realizar consistentemente o seu programa de investigações geográficas com toda a liberdade e independência, como teve ocasião de mencionar, apesar da situação política em Moçambique já ser caracterizada por alguma tensão, sobretudo após o massacre de Mueda (1960) e as exigências de independência política por parte do movimento nacionalista, organizado na Frente de Libertação de Moçambique (1962) que, de forma imparável, já então se afirmava.

É de tudo isto que trata o livro que ora se publica em homenagem a Orlando Ribeiro, que tenho a honra de prefaciar, é um livro que deixará seguramente ainda mais rica a interpretação que o ilustre geógrafo e pensador fazia do mundo tropical e, sobretudo, de Moçambique e dos outros países africanos hoje independentes que foram em tempos colonizados por Portugal. Espero que os leitores se deliciem com a variedade de acontecimentos diários que os cadernos de campo suscitam, com os lugares visitados por Orlando Ribeiro e a sua equipa e que se surpreendam com as descrições da geografia, da história e da diversidade cultural que caracteriza a formação social moçambicana. Ademais, desejo que este livro constitua um contributo efectivo para o estudo de Moçambique e que ele possa ser despoletador de um debate em torno das questões nele tratadas de forma tão minuciosa quanto convincente.

Aurélio Rocha

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