Africana Studia nº 7

 

Índice:

  • Claude Meillassoux (1925-2005) (p. 9)
  • António Almeida Mendes - Portugal e o tráfico de escravos na primeira metade do séc. XVI (p. 13-30)
  • Amândio Barros - O Porto e o trato de escravos no séc. XVI (p. 31-51)
  • Francisco Araújo e Sandra Alves - Escravos e libertos em Leça da Palmeira (1580-1836) (p. 53-72)
  • Didier Lahon - O escravo africano na vida económica e social portuguesa do Antigo Regime (p. 73-100)
  • Arlindo Caldeira - Rebelião e outras formas de resistência à escravatura nas ilhas do golfo da Guiné (sécs. XVI-XVIII) (p. 101-136)
  • João Pedro Marques - Portugal e o fim da escravidão: uma reforma em contra-ciclo (p. 137-161)
  • Maciel Morais Santos - O preço dos escravos no tráfico atlântico - hipóteses de explicação (p. 163-181)
  • Augusto do Nascimento - Escravatura, trabalho forçado e contrato em S. Tomé e Príncipe nos sécs. XIX e XX: sujeição e ética laboral (p. 183-217)
  • Maria Emília Madeira Santos e Vitor Luis Gaspar Rodrigues - A Sociedade das Nações e a extinção da escravidão africana (anos 20 a 40 do séc. XX) (p. 219-226)
  • Flora Bertizzolo e Sílvia Pietrantonio - A denied reality? Forced labour in Italian colonies in Northeast Africa (p. 227-246)
  • Alexander Keese - Dos abusos às revoltas? Trabalho forçado, reformas portuguesas, política tradicional e religião na Baixa de Cassange e no Distrito do Congo (Angola), 1957-1961 (p. 247-276)
  • António Jacinto Rodrigues - A especificidade do imaginário colonial nos romances de aventuras de Ladislau Batalha (p. 277-297)
  • Valdemir Zamparoni - Da escravatura ao trabalho forçado: teorias e práticas (p. 299-325)
  • José Capela - "O pássaro de mel, estudos de história africana", de Isabel Castro Henriques (p. 329-330)
  • José Capela - "The Diligent - a voyage through the worlds of the slave trade", de Robert W. Harms (p. 331-333)
  • Margarida Calafate Ribeiro - "Novos pactos. Outras ficções: ensaios sobre literatura afro-luso-brasileiras", de Laura Cavalcante Padilha (p. 334-338)
  • José Carlos Venâncio - "Kongo-Greuel. Zur literarischen Konfiguration eines kolonialkritischen Diskurses (1890-1910)", de Susanne Gehrmann (p. 339-341)
  • José Carlos Venâncio - Notícia sobre o Simpósio Internacional sobre Amílcar Cabral (9-12 Setembro 2004) (p. 345-346)

 

Editorial

Pretendendo acompanhar e, de alguma maneira, estimular o que se afigura constituir uma crescente curiosidade historiográfica pelas formas de escravatura e de prestação de trabalho da mão-de-obra africana, o Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto reuniu em colóquio investigadores que apresentaram os trabalhos ora publicados. Porque se tratava da comparação de experiências, a homogeneidade temática perdeu na limitação dos contornos mas a diversidade geográfica e de situações concretas enriqueceu a informação contribuindo para a confirmação da universalidade do fenómeno no tempo e no espaço. Na era da globalização por excelência estaremos, porventura, na melhor posição para abarcar essa mesma universalidade e darmo-nos conta da natureza dos seus fundamentos materiais e humanos.

Não é sem regozijo que a iniciativa permite constatar um renovado interesse pela historiografia da escravatura africana em Portugal. À envergadura das reminiscências materiais e de carácter etnológico que essa escravatura deixou no terreno não corresponde uma investigação historiográfica susceptível de abarcar a dimensão de presença tão marcante na metrópole colonial. Os trabalhos contemplando essa área geográfica ilustram o interesse que lhe está a ser emprestado e a qualidade da resposta. O mesmo se poderá acrescentar relativamente à atitude da política oficial portuguesa face à escravatura e à sua abolição. Os problemas, nomeadamente diplomáticos, criados a Portugal foram do maior vulto e repercutiram-se indelevelmente não apenas no seu futuro de potência colonial mas sobretudo no seu devir histórico. Também a manifestação simbólica depositada no imaginário e expressa na literatura popular. A ideologização do colonialismo como facto histórico inelutável, se não mesmo benfazejo, prevaleceu-se de uma forte assunção popular. Desde o desembarque dos escravos em Lagos, espectáculo que converteu os cépticos à aventura colonial (Zurara), até ao acume da afirmação imperial («Angola é nossa», o slogan omnipresente, também cantado pelos recrutas em treino para a guerra), acções da maior eficácia nessa ideologização. O levantamento exaustivo e a análise das expressões do «imaginário colonial», que subsistem, têm aqui uma sugestão e um incentivo não negligenciável.

O tráfico transatlântico de escravos constituindo, em perspectiva global, o núcleo temático que sobre si mais tem atraído a intervenção de estudiosos, é igualmente contemplado com novas informações e análises que sobremaneira enriquecem o seu conhecimento.

A variedade e a especificidade das questões emergentes directamente da prestação de trabalho e os contextos sociais em que se inserem levantam problemas semânticos e epistemológicos que se patenteiam desde a abordagem documental das realidades comezinhas até à forma literária da sua exposição. O trabalho prestado pelos escravos, o trabalho «forçado» ou «compelido», o trabalho decorrente do «contrato [?]», o trabalho dos «serviçais» - amostragem morfológica com a maior carga simbólica são tratados em contextos vários e as comunicações que os abordam contribuem decididamente para a decifração dos casos postos.

Que a questão da equivocidade morfológica e epistemológica é um facto comprova-o a necessidade que instancias internacionais como a Sociedade das Nações e a Organização Internacional do Trabalho sentiram para obterem a definição de «escravatura» a adoptar nas convenções. Afinal a escravatura continua a ser uma questão da pós-modernidade!

A comunicação abordando a formação dos preços dos escravos reveste-se de importância particular pelo facto de a análise incidir na área porventura a mais nebulosa do tráfico.

Permanecendo embora uma atitude nostálgica inconsequente, a invocação da grandeza imperial subsiste. Integrada na mesma consciência recursiva situa-se a desvalorização se não o desprezo pela memória de quanto é entendido como indo em desfavor da glória colectiva. Para análise da escravatura e seu tráfico na era moderna retomam-se velhos paradigmas como o da redução do seu perfil histórico a mera continuidade de práticas ancestrais nas sociedades de África.

Os estudos aqui apresentados pretendem ser um contributo para o avanço do conhecimento nesse tempo e nesse espaço históricos que tanto nos dizem respeito.

Pretendem igualmente ser a primeira tentativa para a sistematização de encontros sobre esta temática, que tanto tem para ser actualizada e debatida interdisciplinarmente.

José Capela

 

Ficha Técnica:

Director: António Custódio Gonçalves

Conselho Científico/Advisory Board: Alberto Amaral (Univ. do Porto - CIPES), Brazão Mazula (Reitor da U.E.M. - Maputo) Christine Messiant (E.H.E.S.S.), Elikia M'Bokolo (E.H.E.S.S.- Paris), Franz-Wilhelm Heimer (CEA-ISCTE - Lisboa), Joana Pereira Leite (CESA-ISEG - Lisboa), Jill Reaney Dias (F.C.S.H. - U.N.L.), João Gomes Cravinho (Univ. Coimbra), Joaquim Alberto da Cruz e Silva (I.I.C.T. - Lisboa), José Novais Barbosa (Reitor da Univ. do Porto), Isabel de Castro Henriques (F.L.U.L.), João Teta (Reitor da U.A.N. Luanda), Patrick Chabal (King's College - London), Michel Cahen (Univ. Bordéus III), Peter Meyns (Univ. Duisburg), Peter Vale (Univ. Western Cape), Saul Dubow (SOAS - Londres), Teresa Cruz e Silva (U.E.M. - Maputo).

Conselho de Redacção/Editorial Board: António Custódio Gonçalves, Carlos José Gomes Pimenta, Elvira Mea, José Capela, José Carlos Venâncio, Maciel Morais Santos, Maria Cristina Pacheco.

Secretariado: Raquel Maria Machado da Cunha

Propriedade: Centro de Estudos Africanos da Universidade do Porto

Edição: Faculdade de Letras da Universidade do Porto

Impressão e acabamento: T. Nunes, Lda o Maia

ISSN: 0874-2375

Depósito legal: 138153/99

Periodicidade: Anual

Tiragem: 500 exemplares

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