Os senhores da floresta. Ritos de iniciação dos rapazes macuas e lómuès

 

Índice:

  • Prefácio
  • Introdução
  • Ritos de passagem nas sociedades moçambicanas
  • Problemática histórico-antropológica
  • O modelo teórico
  • A metodologia seguida
  • As fontes
  • Plano do livro
  • Agradecimentos
  • Advertência

  • Parte I: A sociedade macua-lómuè
  • Capítulo I. Os macuas-lómuès
  • Capítulo II. A organização clânica
  • Capítulo III. A matrilinhagem e os segmentos da linhagem
  • Nota prévia
  • A matrilinhagem macua-lómuè
  • Os segmentos de linhagem e as transformações das unidades conjugais de produção entre 1938 e 1960
  • Capítulo IV. As unidades conjugais e as relações de aliança matrimonial
  • A família conjugal e a produção para o mercado nos anos 60 e primeira metade dos anos 70
  • A família alargada
  • Capítulo V. Chefes menores e chefes maiores
  • A hierarquia chefal na estrutura linhageira e na chefatura
  • O mwene da linhagem e o mwene da chefatura
  • Apwiamwene
  • Sucessão e entronização do mwene e da pwiamwene
  • Capítulo VI. Evolução das estruturas políticas territoriais
  • A chefatura mais antiga
  • A grande chefatura: constelação de pequenas chefaturas
  • Capítulo VII. Cativos da linhagem e escravos para exportação
  • Os cativos e a reprodução social
  • O tráfico: homens e mulheres vendidos como escravos para o mundo exterior
  • O tráfico de escravos e a reestruturação política do território macua-lómuè: grandes chefaturas e novas identidades étnicas

  • Parte II: Da esteira da mãe ao alpendre do tio (Introdução geral aos ritos de iniciação dos rapazes macuas e lómuès)
  • Capítulo I. Aspectos gerais
  • O nome da crisálida
  • Da periodicidade
  • Da época do ano, duração e início das cerimónias
  • A organização política e social das iniciações
  • Os iniciandos
  • Preparativos e cerimónias preliminares
  • Os participantes
  • Os "remédios" da iniciação
  • Tambores, danças e máscaras da iniciação
  • Tambores da iniciação
  • Danças da iniciação
  • Máscaras da iniciação
  • Capítulo II. Ritos de separação
  • Os primeiros ritos
  • O corte do cabelo
  • Ritos propiciatórios aos antepassados
  • Oruma: convocação dos jovens
  • A dança do mwanamá
  • Saída da aldeia para o local da circuncisão
  • Capítulo III. Os senhores da floresta
  • A. Primeira fase da reclusão
  • Othakwani
  • Onipattani
  • A faca da circuncisão
  • O pagamento do "remédio"
  • Olyiha masoma
  • Cabo Delgado
  • Sul da Província do Niassa
  • Macuana Central
  • Alta Zambézia
  • Namuhakwani
  • Os alùkhu
  • Os mikho
  • Os tabus relativos à circuncisão
  • O primeiro banho na floresta
  • A refeição ritual e os "remédios" para dar filhos
  • O rito do muttemulelo
  • B. Segunda fase de reclusão
  • O ephivi
  • O novo nome
  • As instruções e os conselhos
  • Os wahala
  • Os ilema
  • Os mestres dos conselhos e das instruções
  • Os ikano
  • Capítulo IV. Ritos de agregação
  • Preparativos na aldeia
  • Preparativos na floresta e regresso à aldeia
  • Cerimónia do fogo
  • Cerimónia da lança
  • Cerimónia do tronco
  • Cerimónia do banho
  • Último rito da cauda dos "remédios"
  • Mòroshosho ou nkangala
  • O cortejo
  • Últimas cerimónias públicas
  • Regresso à casa da mãe e ritos específicos no etthoko
  • Cerimónia da refeição

  • Parte III. Dos espaços sócio-rituais ao simbolismo zoomórfico
  • Capítulo I. Os espaços sócio-rituais
  • Capítulo II. O fogo sagrado
  • Capítulo III. Máscaras da iniciação
  • Capítulo IV. Circuncisão versus menstruação
  • Capítulo V. Pureza e impureza rituais
  • Capítulo VI. A simbologia das cores
  • Capítulo VII. O bestiário dos ritos

  • Breves considerações finais
  • Fundo documental
  • Siglas e abreviaturas
  • Bibliografia
  • Bibliografia sobre os macuas-lómuès
  • Fontes escritas não publicadas
  • Fontes escritas publicadas
  • Bibliografia sobre os ritos de iniciação nas áreas culturais vizinhas dos macuas-lómuès
  • Bibliografia sobre os ritos de passagem em geral e os ritos de iniciação da puberdade em particular
  • Bibliografia de suporte teórico
  • Bibliografia complementar
  • Revistas consultadas
  • Fonte das figuras
  • Glossário
  • Nota prévia
  • Glossário
  • Índice de figuras, mapas e quadros
  • Índice dos autores citados

Referência bibliográfica do livro:

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MEDEIROS, Eduardo. 2007. Os senhores da floresta. Ritos de iniciação dos rapazes macuas e lómuès. Colecção Estudos Africanos. Porto: Campo das Letras - Editores, S.A.

 

Prefácio / Introdução

A obra que se segue é uma referência fundamental para a compreensão da temática dos ritos de iniciação das populações macuas e lómuès do Norte de Moçambique. Para além disso, devo realçar o facto de o Professor Eduardo da Conceição Medeiros ter colectado, analisado, sistematizado e explicado informação que corria o risco de se perder na voragem oportunista dos novos tempos, que primaram por branquear a história, a cultura e a memória de tradições moçambicanas ancestrais.
A tese de doutoramento de Eduardo Medeiros, construída religiosamente ao longo de vários anos de trabalho de campo antropológico, é um documento etnográfico de valor incalculável para o entendimento das sociedades em estudo, num período crucial da vida moçambicana na sua dolorosa transição colonial para um Estado soberano.
O autor teve o bom senso, a capacidade intelectual e o sentido ético de doar ao Arquivo Histórico Moçambicano um acervo documental único, para benefício de outros investigadores, para salvaguarda da memória colectiva e para enriquecimento do património nacional. Tal atitude contrasta com oportunismos conjunturais baseados em inconfessáveis interesses pessoais que penalizam a comunidade e o bem comum.
Em paralelo com o trabalho de maior fôlego, teve ainda o autor a possibilidade de publicar vários textos sobre escravatura, povoamento, ordenamentos políticos, família e parentesco, assim como opúsculos bibliográficos sobre as sociedades em causa. Mais uma vez, trabalho para a comunidade académica e para todos os interessados nas temáticas norte-moçambicanas.
Passemos a Os Senhores da Floresta. A obra sistematiza-se em cinco partes, constituídas por vários capítulos, que nos ajudam de maneira estruturada a seguir o pensamento do autor e o modo como aborda a problemática dos ritos de iniciação masculinos macuas-lómuès, em sociedades marcadas pelo seu perfil matrilinear.
Apesar das vicissitudes por que passou o processo dos ritos de iniciação (tempo colonial, período de luta pela independência, guerra civil, período revolucionário da soberania e a fase última de consolidação da paz), Eduardo Medeiros apresenta uma análise diacrónica da forma e da substância dos "ritos de passagem" dos adolescentes, enfatizando o significado dos cerimoniais: "A iniciação constituía, antes de mais, um ensinamento progressivo destinado a familiarizar o jovem com as significações do seu próprio corpo chegado à maturidade e com a significação que ela deveria dar ao universo que a envolvia."
Assim, a iniciação era a prova social da identidade do homem adulto, pronto para ser produtor, caçador, guerreiro, marido e pai. Por essa razão, "os ritos de iniciação eram indispensáveis ao normal funcionamento das sociedade macua-lómuè (…) por isso podem entender-se como cursos de educação cívica, cujo ensino tinha como objectivo a aprendizagem das normas que regulam a vida social (…). Nesta ritualidade, entendida como um processo formativo, apareciam momentos que eram de transmissão de saber, de conhecimento tecnológico e que era um primeiro momento de vivência da estratificação social".
A obra que se apresenta é, pois, uma referência obrigatória para estudantes, investigadores, especialistas e outros interessados. Nela se podem apreender os valores e as normas de sociedades tradicionais, hoje em processo de reconstituição e de aculturação, e que nos ensinam a compreender as relações de poder, os sistemas de parentesco, a estrutura social e o fio condutor milenar das sociedades africanas. Sociedades em que muito do seu património intangível está em vias de desaparecimento, por força das ideologias, das religiões e do pragmatismo político contemporâneo.
Não quero deixar de referir a riqueza extraordinária do Fundo Documental e do Glossário, instrumentos de apoio para outros investigadores, o que demonstra, mais uma vez, a generosidade intelectual de Eduardo Medeiros.
Esta investigação, apesar de se ter prolongado ao longo dos anos, foi uma verdadeira "pesquisa de urgência", designação atribuída a trabalhos antropológicos que abordam temas, situações, práticas e comportamentos em processo de mudança galopante ou em vias de extinção. O crédito desta salvaguarda vai todo para Eduardo Medeiros.
Colegas há cerca de dez anos, tenho tido oportunidade de conviver académica e pessoalmente com o autor, num companheirismo saudável de docência, investigação e reflexão na Universidade de Évora. Aqui temos partilhado disciplinas comuns (Antropologia I, Antropologia II, Antropologia Cultural, Antropologia da Arte, Antropologia do Espaço), preocupações comuns, interesses comuns.
Nesse sentido, sinto-me privilegiado em tecer estas considerações sobre Os Senhores da Floresta e o seu autor, pela convicção que tenho no sucesso deste livro, na sua utilidade e interesse.
Portugal, potência colonial, não aproveitou a possibilidade de alargar e aprofundar outros estudos antropológicos em Moçambique, quando apenas nos vem à ideia a investigação de Jorge Dias sobre os Macondes. Sem desprimor para muitos padres, administradores, missionários e militares anónimos que realizaram recolhas etnográficas de valor.
Assim, Os Senhores da Floresta é um texto de leitura obrigatória e de reflexão permanente para todos aqueles que se interessam pela cultura moçambicana.

Francisco Martins Ramos, antrolólogo

Universidade de Évora

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