Multiculturalismo, Poderes e Etnicidades na África Subsariana

Índice:

  • António Custódio Gonçalves - Prefácio
  • António Custódio Gonçalves - Identidades e Alteridades culturais: Desafios às Solidariedades Sociais e aos Poderes Politicos
  • Franz-Wilhelm Heimer - Fronteiras e Identidades Sociais em Africa
  • José Carlos Venâncio - Multiculturalismo e Literatura Nacional em Angola
  • Margarida Fernandes - Os Textos e os Contextos — As Literaturas Africanas de Língua Portuguesa entre a Ficção e a Realidade
  • Eduardo Costa Dias - "Da'Wa", Política, Identidade Religiosa e "Invenção" de uma "Nação"
  • Ute Luig - The Electoral Campaign: Negotiation of Citizenship and Multiculturalism in Ivory Coast
  • Alex van Stipriaan - Creolization and the Lessons of a Watergoddess in the Black Atlantic
  • Gabriela Sampaio - A História do Feiticeiro Juca Rosa: Matrizes Culturais da África Subsariana em Rituais Religiosos Brasileiros do Século XIX
  • Manuel Laranjeira Rodrigues Areia - Rituais Alternativos do Poder em Angola
  • Ivo Carneiro de Sousa - A Conflitualidade na África Subsariana: Do Problema das Fontes à Renovação das Teorias


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GONÇALVES (Org.), António Custódio. 2001. Multiculturalismo, Poderes e Etnicidades na África Subsariana. Papers at IV Colóquio Internacional "Multiculturalismo, Poderes e Etnicidades na África Subsariana", 2002, at FLUP - Porto.

Introdução

No âmbito dos trabalhos desenvolvidos pela linha de investigação "Estados, Poderes e Identidades na África Subsariana", integrada na Unidade I&D, financiada pela Fundação para a Ciência e a Tecnologia, publicam-se as Actas do IV Colóquio Internacional "Multiculturalismo, Poderes e Etnicidades na África Subsariana", realizado na Faculdade de Letras da Universidade do Porto, nos dias 4 e 5 de Maio de 2001.
A análise de temáticas como o multiculturalismo, os poderes e as etnicidades por especialistas em estudos africanos é importante, sobretudo pelo questionamento de algumas visões etnocêntricas da história e das mutações em África e pelas rupturas metodológicas nos modelos conceptuais e teóricos. O contributo das Ciências Sociais e Humanas torna-se necessário para compreender e explicar as dinâmicas sócio-políticas dos processos ambivalentes de identificação e de reivindicação étnica do poder, e também, numa perspectiva de intervenção, para prevenir os conflitos induzidos pelos afrontamentos inerentes aos reforços dos fenómenos pluri-étnicos e multiculturais.
Estes fenómenos políticos de heterogeneidade étnica e cultural, associados a processos de pertenças sociais ou territoriais, revelam-se, por vezes, com acentuações maximalistas ou minimalistas de clientelismo. As etnicidades cristalizaram, durante o período colonial e após as independências, a percepção da diversidade cultural. Esta cristalização de "etnias" reenvia depois a processos de dominação política, económica ou ideológica. Elaboram-se e justificam-se, assim, as estratégias individuais e colectivas pela conquista dos poderes.
Várias interpretações dos fenómenos políticos da África contemporânea integraram as "etnias" e os "Estados nacionais em construção" em esquemas simplistas e imutáveis. Ora, as "etnias" constituem uma sucessão de configurações e representações que, na história de longa duração, dão corpo e vida às identificações sociais e às identidades culturais. Daqui resulta a necessidade de reavaliação crítica das etnicidades. É, por isso, que estes debates não devem ser meramente teóricos.
É no âmbito da problemática mais vasta do multiculturalismo, como matriz do Homem Universal e de uma nova cultura, que importa analisar os factos contemporâneos quanto à compreensão das novas éticas e das novas lógicas sociais subjacentes às sociedades africanas e que constituem novos desafios para as Ciências Sociais e Humanas.
Nas conferências deste Colóquio cruzam-se dois olhares: as encruzilhadas de tempos e espaços que produzem novas identidades: as identidades de longa duração constituídas pelas grandes tendências de África e as identidades contemporâneas associadas às perspectivas políticas e sociais de hoje. Por isso, se analisa o passado para melhor compreender as realidades do presente e poder assim diagnosticar as perspectivas futuras na sua dimensão histórica.
Cruzam-se novos modos de vida, novos valores, novas identidades sociais e novas alteridades culturais. Estas são construídas sobre duas matrizes: o modelo tradicional e o modelo da modernidade. São culturas bipolares, mas interactivas e complementares, e como tal devem ser analisadas; constituídas pela vertente tradicional, centrípeto, privilegiando os comportamentos repetitivos e harmónicos, e pela vertente modernista, conflitual, voltada para a inovação e para a visão prospectiva. Estas duas matrizes apresentam-se com uma relação antagónica e, por vezes, agonística e fundamentalista.
Assiste-se, hoje, a uma crise de alteridade generalizada traduzida por fenómenos tais como fundamentalismos e nacionalismos, crises e decomposição dos Estados. Associada a esta crise de alteridade está uma crise de sentido. As relações de sentido constituídas pelas alteridades e identidades instituídas e simbolizadas pelas encruzilhadas, encontros e desencontros de culturas formam a complexidade das sociedades da África Subsariana. Esta complexidade resulta da singularidade que as constitui e a universalidade que as relativiza. Importa, pois, reflectir sobre os défices de sentido na África de hoje.
Na análise do multiculturalismo é necessário compreender as duas lógicas da globalização: uma que consiste na erradicação das diferenças culturais, a outra que se associa à tolerância das diferenças e à oposição ao reconhecimento político e institucional da alteridade colectiva.
Em sociedades de globalização generalizada e falaciosa, onde predomina o individualismo, de tábua matricial de valores estandardizados aceites acriticamente e de fenómenos avassaladores de burocratização e das indústrias culturais mediáticas, temáticas como o multiculturalismo, o reconhecimento dos outros, a diversidade e a alteridade convocam a análise pluridisciplinar das Ciências Sociais e Humanas e promovem movimentos pelos direitos humanos, pela paz e pelas políticas de desenvolvimento sustentado, que minimizem as políticas do desenvolvimento assimétrico, muitas vezes subvertidas pela subjugação das identidades culturais e dos direitos humanos às leis do mercado.
O saber-viver as identidades e as alteridades induz novas configurações das solidariedades, na luta enérgica contra a exclusão social, a pobreza e a xenofobia, e contra a desumanização, a perda das identidades culturais, a ruptura do equilíbrio da relação do homem ao grupo e do homem com a natureza. Induz, igualmente, novos processos de construção da democracia, do desenvolvimento e da cidadania que assegure a autonomia e o respeito pela diferença, numa comunidade de leis e de valores culturais. Assim, para minimizar os efeitos perversos da globalização, afigura-se necessário e urgente a integração e a adequação da racionalidade económica e da inovação tecnológica com a criatividade do desenvolvimento, os sistemas normativos dos valores africanos, numa interacção construcionista e complementar da tradição e da modernidade.

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